Tristeza e Melancolia no Olhar de Lacan.

Por Valdo Silva Psicanalista

Hoje eu quero falar sobre tristeza e melancolia por um caminho diferente daquele que a gente costuma ouvir — não como fraqueza, nem como defeito emocional, mas como algo profundamente ligado ao desejo, ao amor e à falta.

Na psicanálise, especialmente em Lacan, a tristeza não é vista apenas como um sintoma a ser eliminado. Ela pode ser um sinal de que algo do nosso desejo ficou silenciado, desconectado da nossa palavra, da nossa verdade subjetiva.

Lacan dizia algo muito forte: que a tristeza, em certos casos, pode ser entendida como uma forma de covardia moral — não no sentido de julgamento, mas como um recuo diante da própria responsabilidade de desejar. Quando o sujeito não consegue sustentar o que quer, quando abandona sua posição no mundo, o corpo e o afeto falam por ele.

Já a melancolia vai mais fundo. Na melancolia, não é só algo que se perde — é como se o próprio sujeito se perdesse junto. Diferente do luto, em que sabemos o que perdemos, na melancolia existe uma perda sem nome, sem rosto, sem objeto claro. Algo falta, mas a gente não sabe exatamente o quê. E isso dói no corpo, no pensamento, na identidade.

Lacan dialoga com Freud ao dizer que, na melancolia, o sujeito se identifica com aquilo que perdeu. É como se dissesse inconscientemente:
“Se eu perdi o outro, então eu sou a perda.”
E daí surgem sentimentos de vazio, inutilidade, culpa profunda e desvalor — não porque a pessoa seja assim, mas porque ela passa a ocupar o lugar do objeto perdido.

A tristeza, então, não é só emoção. Ela é também uma posição subjetiva diante da vida. Pode ser uma pausa necessária, um tempo de elaboração, mas também pode virar um aprisionamento quando o sujeito não consegue simbolizar o que perdeu, o que desejava, ou o que não foi possível viver.

Na clínica — e isso vale também para a vida — o caminho não é tirar a tristeza à força, nem tapar a melancolia com frases prontas ou produtividade compulsiva. O caminho é dar palavra ao sofrimento. Porque, para Lacan, o sujeito se constitui na linguagem. Aquilo que não é dito retorna no corpo, no sintoma, na angústia, na dor emocional.

E talvez aqui esteja uma das ideias mais bonitas da psicanálise:
A tristeza não é o fim da vida psíquica — muitas vezes, ela é o começo de um reencontro com o próprio desejo. Quando alguém consegue dizer “algo em mim não vai bem”, isso já é um movimento de saída do silêncio.

A melancolia não pede aceleração. Ela pede escuta. Pede tempo. Pede presença. Porque, muitas vezes, o que está em jogo não é recuperar algo que foi perdido, mas reconstruir quem se é depois da perda.

Então, se você está triste, talvez não seja fraqueza. Talvez seja o sinal de que algo em você está pedindo sentido. Se você está melancólico, talvez não seja desânimo — talvez seja uma dor sem nome que ainda precisa virar palavra.

E como Lacan nos ensina:
Quando algo pode ser dito, já não precisa mais ser carregado sozinho.

Valdo Silva
Valdo Silva
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